
Este é um dos meus discos favoritos—possivelmente a obra-prima do Manic Street Preachers—, mas é também um dos mais difíceis de apreciar. Quase todas as músicas são pesadas (não exatamente rock paulêra a la Slayer) e pouco radio-friendly. (Fico surpreso em saber que foram extraídos 3 singles desse disco—mais ainda que um deles alcançou o Top 20 britânico.) A estrutura pouco convencional das músicas (uma mistura de punk com post-rock), os excertos obscuros entre as canções, a fina camada de produção—claramente deliberada—que às vezes assemelha o disco a uma demo tape e, não menos, a arte grotesca (a capa é uma pintura de Jenny Saville) e as letras, enterradas num sotaque incompreensível, em gritos ou em uma prosódia peculiar, tudo parece tornar a coisa toda ainda mais impalatável. É como se toda a controvérsia que cerca a concepção do álbum fosse inescapável até ao ouvido mais desatento.
Por que, então, insisti em ouvir esse disco até aprender a apreciá-lo?
O primeiro disco do Manics que ouvi foi This Is My Truth Tell Me Yours, infinitamente mais polido e pop do que este pedrugulho a que eles chamaram de Holy Bible. O som era imediato. Nesse disco estão alguns dos maiores hits da banda e, com ele, consolidaram-se como uma das grandes bandas do Reino Unido (sempre foram ignorados fora da Europa, especialmente nos EUA). Mas era também o primeiro disco sem qualquer participação do mentor da banda, Richey Edwards, desaparecido desde 1995, quando sumiu prestes a embarcar para os Estados Unidos para promover The Holy Bible. Com a promoção do disco suspensa, estava suspenso também qualquer impacto que o grupo, claramente no seu auge, pudesse causar nas plateias americanas. Ou talvez esse impacto já tivesse sido abortado tempos antes com as constantes críticas ao imperialismo norte-americano presentes em todos os álbuns/EPs/singles/panfletos/qualquer coisa lançados pelo MSP até aqui. Nunca saberemos. Assim como, aparentemente, nunca saberemos o destino de Richey, nunca encontrado e declarado oficialmente morto em 2008.
Richey praticamente não tocava sua Fender Telecaster. Em muitos shows, seu instrumento permanecia desligado para que ele não atrapalhasse o restante da banda. Entretanto, sua contribuição como alma da banda não pode ser diminuída. Adicionado a entourage por último, sua inaptidão musical sempre fez parte do contrato, assim como o seu papel como letrista e “frontman”. No caso de The Holy Bible, estima-se que ele escreveu cerca de 80% das letras. O que remete ao modus operandi pouco comum do grupo: as letras são escritas antes das músicas, e só depois adaptadas pelos primos James Bradfield/Sean Moore—que juram nunca terem tido problema em colocar em versos as frases longuíssimas e prolixas redigidas pela outra metade do grupo, Nicky Wire e Richey Edwards.
Em THB, as letras variam entre ininteligíveis e muito inteligentes (às vezes demais, com toda a pretensão do garoto nerd que escreve redações escolares para ganhar o Pulitzer). Edwards, graduado em História Política, supostamente estava lendo sete livros por semana no período de composição das letras do disco (gostaria de saber quais livros) e seu estado mental instável culminou na sua internação em hospitais psiquiátricos. Com a probabilidade a meu favor, separei alguns trechos de letras que imagino terem sido escritas por ele:
And in these plagued streets of pity you can buy anything
For £200 anyone can conceive a God on video
He’s a boy, you want a girl so tear off his cock
Tie his hair in bunches, fuck him, call him Rita if you want
(Yes)
Mussolini hangs from a butcher’s hook
Hitler reprised in the worm of your soul
Horthy’s corpse screened to a million
Tisu revived, the horror of a bullfight
(Of Walking Abortion)
Execution needed
A bloody vessel for your peace
If man makes death then death makes man
Tear the torso with horses and chains
Killers view themselves like they view the world
They pick at the holes
Not punish less, rise the pain
Sterilise rapists, all I preach is extinction
(Archives Of Pain)
Wherever you go I will be carcass
Whatever you see will be rotting flesh
Humanity recovered glittering etiquette
Answers her crimes with Mausoleum rent
(Mausoleum)
The hole in my life even stains the soil
My heart shrinks to barely a pulse
A tiny animal curled into a quarter circle
If you really care wash the feet of a beggar
(Die In The Summertime)
Self-worth scatters, self-esteem’s a bore
I long since moved to a higher plateau
This discipline’s so rare so please applaud
Just look at the fat scum who pamper me so
(4st. 7lbs.)
Não é exatamente o que você encontra nos discos do Franz Ferdinand.
As músicas que acompanham estas letras são devidamente apropriadas (o que seus amigos chamariam de “pra baixo”—se você tem os amigos certos), e o clima do disco não poderia ser menos otimista. Se você tem dúvidas quanto ao teor da obra, lembre-se que o desfecho da história é o suicídio de um dos principais envolvidos em sua criação.
Mas respondendo à pergunta que suscitei mais cedo: é claro que é uma pergunta sem resposta certa, mas posso arriscar. Apesar da dificuldade inerente à apreciação total do disco, há um charme presente em tudo que o MSP já fez e que, aqui, é ainda mais evidente. Há tantas referências—e, graças à inteligência média dos envolvidos, vai além do namedropping—, que parte da graça está em desvendar sobre o que estão falando (trabalho que, sem dúvida, foi facilitado com a invenção da Wikipedia). O que torna o trabalho do MSP tão único e interessante é a possibilidade de descobrir outras coisas interessantes (como Jenny Saville, por exemplo).
Obviamente que, para mim, hoje a música em The Holy Bible tem sustentação própria. Gosto de como ela soa e gosto da estética que música e letra formam. “The Intense Humming Of Evil” ainda é uma das coisas mais surpreendentes e horripilantes que já ouvi. Não conheço nada parecido e com essa profundidade.